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sábado, 28 de abril de 2012

Receita de Homem, de Ruth Farias Larré


Ruth Farias Larré é professora, escritora, poetisa, cronista, contista, declamadora, cadeira nº 5 da Academia Santamariense de Letras.

As muito feias que me perdoem,                                                                              
Mas beleza é fundamental.
(Vinicius de Moraes - "Receita de mulher")



Os muito rudes que me perdoem,
mas ternura é fundamental.
É preciso que haja sempre algo de amor em tudo isso.
É preciso que, ao apear em nosso território,
o homem traga os peçuelos pesados de carinho.
Que chegue ousado, pra tomar posse,
mas ciente de que nunca será senhor absoluto.
É preciso, é absolutamente preciso
que o macho seja homem.
Que venha como quem chega ao mais belo campo de batalha
e aceite, na luta, ser dominador e dominado.
Que traga olhos de melancolia
pra despertar os necessários devaneios em horas de não-ser.
Mas que, às vezes, saiba ser um pouco irreverente,
que tenha risos pra rir de vez em quando
e carregue enormes reservas de humor inteligente.
Que, ao som de valsas, de tangos ou milongas,
altivo ou entonado,
seu corpo se incendeie em ritmo e, ao contato do frágil corpo companheiro,
levitem ambos na incomparável magia de dançar.
Que suas mãos conheçam os segredos de todas as carícias
e, nas escuras horas luminosas, saibam caminhar em andanças milagrosas,
provocando avalanches, quedas d'água, terremotos...
Ah, deixai-me dizer-vos que é todo imprescindível
Que também haja um largo peito de aconchego
e fortes braços de abraçar carências.
E, embora não seja de todo carecente, é recomendável
que haja um sombreado de barba numa cara expressiva e benfazeja.
É preciso que ele tenha boca de muito beijar e de belo falar:
de voz intensamente morna, grave, insinuante.
Mas também é muito preciso que tenha ouvidos
de ouvir e de entender.
Que se enterneça ao canto, ao assobio, à melodia,
e à musicalidade da palavra em poesia.
Que ame o céu azul, os verdes campos, os morros,
o sol, a chuva, a lua, as águas cristalinas,
o poderoso mar de eternas vagas.
Que se sinta atraído por novas descobertas
e se disponha a desbravar caminhos.
Que não se queixe nunca de envelhecer na alma,
pois que o espírito jamais pode perder o vigor dos verdes anos.
É, pois, absolutamente necessário que ele saiba suportar
os açoites de todos os minuanos,
quando atacam, sorrateiros, em inesperadas volteadas de coxilhas.
É importantíssimo que o homem seja alto,
alto nos pensares e sonhares.
E capaz de compreender o pensar e o sonhar da amada.
Que seja generoso
E não cultive o azedume das querelas.
Que saiba tão bem pedir como ofertar
o fruto doce do perdão e da harmonia.
E que haja sempre dignidade nos seus passos.
E amor à vida, ao irmão, ao Pai Maior.
É preciso, enfim, que, enlaçando seu destino à bem-amada
e sendo pai, amante, companheiro,
nunca se esqueça de levá-la, às vezes,
numa rede tecida só de enlevos,
para o mágico país dos namorados.


Escritora Ruth rodeada de escritores sepeenses e santamarienses

 

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