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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Carta de Jane Tutikian aos Caçapavanos


Meus queridos amigos de Caçapava,

pensava que ia comemorar com vocês minha primeira semana de sexagenária, e não consegui, como boa idosa debutante, estou aqui toda dura, com uma crise de coluna.

Brincadeiras à parte, gostaria mesmo era de estar aí com vocês, nesta festa do livro. Uma das perguntas que mais tenho respondido nos últimos tempos tem sido se o livro vai acabar. Não. Não vai, enquanto tivermos quem tome a frente na organização de uma Feira por acreditar na importância dos livros e das pessoas, ele não vai acabar. O homem levou séculos para chegar à escrita, ao alfabeto, ao papel, ao livro. Cada livro, por mais singelo que seja, é patrimonio de uma civilização inteira!

Neste momento em que vivemos, de depressa produzir para mais depressa consumir, pode ser que exista quem pense que o livro sequer justifique o mundo. Ele é inútil, porque útil é o dinheiro.

Mas não nos enganemos. Sempre que vendemos ou trocamos alguma coisa nós a perdemos. Aprendi isso com o filósofo Nuccio Ordine. Se eu tenho o relógio e troco por uma outra coisa, eu o perco. Se eu o vendo, eu o perco. A única coisa que não se perde quando se dá é a cultura, é o conhecimento. Já dizia  Durrel, no quarteto de Alexandria, que só no silêncio ativo do artista é que a realidade pode ser apreendida naquilo o que ela tem de verdadeiramente significativo.  

Eu os convido, então, para que façamos, um exercício de imaginação: estamos numa caverna escura e temos conosco uma pequena caixa de fósforos. Vamos acender um de cada vez, ele vai iluminar um ou dois passos e precisaremos acender outro e outro. O texto literário não é mais do que um pau de fósforo numa caverna e a escolha é nossa: ou iluminamos o próximo passo ou vamos nos batendo no escuro. É o pequeno facho de luz que produz o conhecimento e o autoconhecimento, é o que nos leva a perguntar, a responder, a imaginar, a sentir o prazer e viajar pela paixão, até porque as palavras ultrapassam as máquinas, elas  são pontes, mesmo quando dizem o contrário do que querem dizer, porque revelam mesmo quando escondem, porque são o meio de nos unirmos ao mundo e aos nossos semelhantes. 

Estendamos, então, a caixa de fósforos para as nossas crianças e jovens, somos nós, todos, família e professores, responsáveis pela formação do leitor. Em relação a eles, é obrigação, não é escolha.  Eles ainda podem ser pessoas melhores e mais felizes do que nós. É para isso que a literatura existe, é para isso que os livros existem, é para isso que as feiras existem.

Um beijo a todos e parabéns por mais esta edição da Feira do Livro de Caçapava.

Jane Tutikian

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